sábado, agosto 24

Dr. José Teixeira Filho deixa legado de ousadia e amor pela medicina

Dr. José Teixeira Filho jornaldomingo.com.brFaleceu na noite da última sexta-feira, 02 de agosto, vítima de uma pneumonia, um dos mais renomados nomes da medicina de Pouso Alegre: Dr. José Teixeira Filho. Médico cardiologista, ele exerceu a profissão por 43 anos e há cerca de dez anos resolveu se aposentar.

Iria completar 82 anos em novembro. Deixa esposa – a médica cardiologista pediátrica Dra. Julia Maria Alkmim Teixeira, três filhos: os médicos Dr. Andrei e Dr. Ricardo Alkmim Teixeira e o engenheiro Leandro Alkmim Teixeira, além de quatro netos.

Com era desejo dele, não houve velório ou qualquer cerimônia. O corpo foi traslado para São Paulo, no sábado, 03, para cremação na Vila Alpina.

Legado

Dr. José Teixeira Filho deixa um grande legado, fruto de sua invejável visão de futuro. Após se formar em Medicina na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte, veio exercer a profissão aqui em Pouso Alegre. Atuou como médico no Exército por 14 meses e mais tarde participou da criação do Hospital São Camilo ao lado de outros colegas. Atuou naquela instituição durante algum tempo, mas a paixão pela medicina o fez ir além.

O desafio foi lançado quando comprou uma antiga casa no bairro Santa Dorotéia e lá fundou, em 1º de janeiro de 1975, o Instituto de Cardiologia e Medicina Interna que funcionava com apenas três apartamentos e seu consultório. Ao longo dos anos o empreendimento prosperou e as instalações foram totalmente ampliadas. O Instituto, que no início era voltado especificamente ao tratamento cardíaco, passou a agregar também profissionais de outras especialidades médicas. Com isso, o Instituto se transformou no Hospital Renascentista que hoje é referência no atendimento à saúde em Pouso Alegre e no Sul de Minas.

Dr. José Teixeira Filho jornaldomingo.com.br
Dr. José Teixeira Filho com os três filhos, em frente ao antigo Instituto de Cardiologia e Medicina Interna – hoje Hospital Renascentista.

Há alguns anos, em entrevista à esta repórter, quando contava um pouco de sua história e do Hospital que fundou, Dr. José Teixeira Filho disse: “foi uma ousadia que deu certo e todo o sacrifício valeu a pena. Sempre gostei desta área e sei que meus filhos vão levar a instituição para frente. Sinto um prazer enorme em ter implantado este hospital na cidade que faz parte da minha vida. Mas o maior prazer não é a obra em si, mas é ver, por exemplo, um paciente chegar praticamente sem chances de vida e depois voltar para casa andando. Isso é muito satisfatório”.

Dr. José Teixeira Filho, além de amar a medicina, era um apaixonado pela Literatura. De opinião forte, durante um bom tempo foi colunista do Jornal Domingo e tinha leitores assíduos. Como forma de homenagem, o Jornal Domingo republica abaixo um de seus artigos. Em especial, um texto que escreveu falando de sua aposentadoria como médico, em dezembro de 2009. Vale a leitura!

 O ÚLTIMO PÔR DO SOL

*JOSÉ TEIXEIRA FILHO

        “Um dia eu estava tão triste que eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes.”

                                Antoine de Saint-Exupéry, escritor e piloto francês

FOTO DR. TEIXEIRA 

Quem resolveu estudar medicina já sabia que a vida não lhe caberia, ou seja, não teria o direito de escolher o quê e quando iria fazer qualquer coisa.

Antes de o sol nascer, na penumbra matinal, muitas vezes o médico tem que pular da cama e sair correndo para o hospital porque algum paciente está precisando com urgência da sua presença.

Geralmente uma pessoa, qualquer uma, gosta muito de assistir ao nascer-do-sol, como gosta de assistir ao pôr-do-sol, dependendo do estado de espírito de cada um.

No famoso livro O Pequeno Príncipe, escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, o autor imaginou um pequeno planeta onde morava sozinho e que de tão pequeno não tinha dimensão maior do que o de uma casa.

Pois era naquele minúsculo planeta que morava o simpático principezinho que vivia olhando para os outros planetas e conversando com outras pessoas, lá nas alturas. Às vezes se sentia alegre e olhava o imenso universo colocado bem à sua frente todo iluminado pelo sol,  irradiando alegria.

Como no planetinha em que vivia ele tinha o privilégio de assistir o que queria ver, bastando para tal apenas empurrar a cadeirinha para a frente quando estava alegre, e lá estava o imenso sol nascendo lá embaixo e deste modo assistir fascinado o espetáculo do sol-nascente quantas vezes o quisesse.

Ao contrário, quando estivesse triste, ele puxava a cadeira para trás e desta maneira podia assistir ao pôr-do-sol e curtir a sua tristeza todo o tempo que ela durasse.

Com frequência os médicos têm inúmeras oportunidades de assistirem ao nascer do sol. Inúmeras vezes, ao sair de casa para o trabalho, o médico assiste o restinho da noite que se vai e o início do dia que está chegando.

Como tudo que começa um dia acaba, depois de exercer a medicina por 43 anos anos, estou dando adeus à profissão que um dia eu sonhei exercer. No mesmo mês que um dia eu recebera o meu canudo, exatamente quarenta três anos depois estou dando agora adeus à profissão de médico e me transformando em ex-médico.

Já na próxima semana não serei mais médico e no restinho de vida que me resta, vou me transformar em ex-médico e me dedicar exclusivamente à segunda atividade de que mais  gosto, a literatura.

Claro que não tenho a mínima pretensão de escrever livros e publicá-los. Embora já esteja escrevendo em ritmo lento, que agora posso acelerar, porque já fora da medicina, nunca passou pela minha cabeça publicar um livro.

Os livros que eu vier a escrever serão livros de um único exemplar e só os amigos da posteridade, mesmo depois que eu já tiver partido, poderão pegar aquelas folhas pobremente encadernadas, se distraírem enquanto tomarem conhecimento do que eu pensei e registrei durante a minha vida para depois poderem julgar se a leitura valeu ou não a pena se debruçarem sobre eles.

Uma coisa é certa: se eu também tivesse um planetinha só meu, tal como o autor do Pequeno Príncipe, certamente eu iria imitar o principezinho e de tanta tristeza de ter que dar adeus à medicina, eu iria passar grande parte do meu tempo puxando a cadeirinha para trás e assim dar vazão à minha atual melancolia por ter que deixar a minha medicina na saudade de tal maneira que eu também assistisse ao pôr-do-sol por quarenta e três vezes.

Para aliviar a minha tristeza, eu deixo, para prosseguirem a sina de continuarem tratando dos pacientes, com o mesmo entusiasmo e com mais competência, dois filhos que prosseguirão na profissão, sem a certeza de poderem assistir diariamente o nascer e o pôr-do-sol: Ricardo Alkmim Teixeira, cardiologista, e Andrei Alkmim Teixeira, nefrologista.

Eliana Silva

Jornalista Responsável em Jornal Domingo
Formada em Jornalismo pela Univás (Universidade do Vale do Sapucaí) e pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela FAI (Centro Superior em Gestão, Tecnologia e Educação).
Eliana Silva

2 Comments

  • Fernando de Oliveira Duarte

    A medicina já estava carente de sua competência como medico quando ele escolheu se aposentar.
    Agora estamos todos subtraídos desse exemplo de caracter, empreendedorismo e obstinação incansavel pelas suas legitimas e necessárias metas alcançadas ao londo de sua vida. Muitos, como eu , fomos beneficiados pela sua passagem por esse mundo. Fica aqui o meu respeito e gratidão ao Dr José Teixeira Filho pelo que representa em minha vida profissional e pessoal.

  • Luiz Carlos Fernandes Silva

    Tive um grande prazer de trabalhar no final da década de 80 como funcionário do ICMI, e ter como Patrão e mestre o Dr. J. Teixeira Filho. Como Patrão era de fácil acesso, ouvia seus funcionários e sempre procurava resolver os problemas de forma amigável. Sempre o considerei como um grande conselheiro, seja sobre qualquer assunto, até porque eu era um jovem ainda. Sempre que tinha a oportunidade de ouvi-lo, ficava impressionado com o conhecimento imensurável que tinha, abordando qualquer assunto que não correspondesse com sua formação profissional. Eu me deleitava com os momentos em que podia retirar um pouco da sua sabedoria, afinal, ele era um leitor assíduo. Sempre tinha respostas para questões que implicava um maior discernimento. Em todo o meu processo de amadurecimento nesta vida, penso que não encontrarei uma pessoa que conquistou a estabilidade financeira e o sucesso como médico e empresário, sem perder sua essência, a simplicidade.

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