segunda-feira, outubro 21

Vingadores: Ultimato – qual o segredo do sucesso?

Vingadores 1

*Marcelo Cunha

Com apenas dois meses de lançamento e 2,683 bilhões de dólares de bilheteria, o filme Vingadores: Ultimato está próximo de se tornar o maior sucesso do cinema mundial de todos os tempos. Mas o que faz um filme ganhar tamanha audiência, em tantos países e culturas diferentes?

Os filmes de heróis viraram uma febre. Parece existir uma identificação nossa com esses personagens indestrutíveis e superpoderosos. Algo que não havia antes. A todo o momento vemos nos jornais ameaças que só pensávamos serem possíveis em filmes de ficção: catástrofes climáticas, epidemias, atentados, etc. Cadê os super-heróis para nos defender? (Já que boa parte do mundo não acredita mais em algum deus, ou deuses que lhe valham…). Parece que um filme assim consegue tocar a necessidade humana de superar as limitações e fragilidades do dia-a-dia. Um desejo de infinitude. Afinal, quem não gostaria de ter as “jóias do infinito”?

No entanto, como disse Tony Stark no final do filme Vingadores: “parte da jornada é o fim”. Se todos os filmes da Marvel celebraram a invencibilidade, não é o caso desse último, que em inglês se chama “Endgame”: fim de jogo. É um filme que retrata o fechamento de uma saga e isso nos remete ao final da vida: ele inicia e termina com uma despedida do Tony. O filme parece uma grande análise dos fins: fim da vida, como na morte do Homem de Ferro, ou na velhice do Capitão América. Fim da carreira: como no Thor aposentado, obeso e depressivo. Despedida de um amigo, como no fim da vida da Viúva negra. O luto aparece tanto no grupo de autoajuda como no funeral final.

A morte, como tema principal, é bem representada pelo mega-vilão, Thanos. Segundo seu criador, ele foi criado com base em Thanatos, deus grego da morte. Em mais de uma cena ele se descreve como “inevitável” – como a morte é para todos os viventes.

Mas se o fim é inevitável, ele também pode dar o sentido que faltava, como a pontuação no final de uma frase. O final permite a reflexão da jornada percorrida, reencontrar e perdoar. Tony tem a chance de revisitar seu passado, e travar um diálogo com seu pai como nunca fizera antes. O encontro com a sua mãe ajuda Thor a se perdoar. E o Capitão América finalmente vive o amor da sua vida, ao voltar no tempo.

O fim da vida, ou de uma história, também é a oportunidade da integração saudável dos opostos. Doutor Banner e a monja fazem um pacto entre a fé e a ciência. A guerra final tem heróis e heroínas lutando lado-a-lado – masculino e feminino em harmonia. O próprio Hulk integra a força bruta e a inteligência em si mesmo – médico e monstro fazem as pazes. Ao passar o escudo para o Falcão, o velho Rogers une idades e raças. Nebulosa luta consigo mesma e mata sua pior versão, como tantas vezes temos que enfrentar a nós mesmo, seja na vida ou num consultório de psicologia. Thor desiste de ser rei: abre mão da tradição e do legado familiar para sair em busca da própria identidade.

O filme Vingadores também ilustra um outro fim. Não o de uma vida, mas o “fim do mundo”, o Armagedom, que seria a guerra épica entre o bem e o mau, representada em tantas culturas e religiões. E da mesma forma que em inúmeras tradições, incluindo a cristã, é o sacrifício do herói, dando sua vida pelo bem de todos, que fará a diferença entre destino e escolha, sina e liberdade, fim e recomeço.

Vem muito bem a calhar a frase final de Tony Stark. Ele responde ao “sou inevitável” de Thanos com “sou o Homem de Ferro”, que ele usou em tantos filmes. Mas agora não é o ferro, elemento químico da armadura. Ela está destruída e a vida está por um fio. É o ferro da alma, do herói mais humano de todos, que não tinha superpoder algum além da sua personalidade e suas decisões. Mas, de convicção de ferro, abre mão de ver a filha crescer para salvar a humanidade. Como nas histórias dos santos das diversas tradições, a morte não o impede de fazer o que era certo. Se o tema do filme Vingadores foi a morte, também dela ficou uma lição: mais importante do que o medo de morrer tem que ser a vontade de viver uma vida que tenha valido à pena. Talvez aí esteja o segredo dos heróis de carne e osso.

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Marcelo Cunha é Psicólogo da Slim Clinic (CRP: 04/48283)

Instagram: @psicologomarcelocunha 

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