segunda-feira, agosto 19

O surto da privacidade a partir do caso Neymar

A privacidade, numa perspectiva histórica, nasce da separação entre o público e o privado, que delimita duas esferas de atuação do indivíduo: a íntima e a social. Enquanto na esfera social, o indivíduo atua como um cidadão – sujeito de direitos e deveres -, na esfera íntima é aquela em que o indivíduo goza da sua liberdade privada, que em seu conceito clássico, refere-se “ao direito de ser deixado só”.

No entanto, nunca na história da humanidade estivemos tão confusos quanto quais são as nossas ações privadas – às quais deve ser preservado o sigilo da pessoa em não ser obrigada a expor (postar), prestar contas ou justificar o que está fazendo -, e quais são as nossas ações públicas, características da vida em comunidade, como as relações de trabalho e de convivência no espaço social.

Essa confusão está explicita nas redes sociais, que incentivam o indivíduo a estar o tempo todo conectado virtualmente com as demais pessoas, interagindo com o que todos estão fazendo e abrindo a oportunidade para o usuário se expressar quando e como queira. Tudo isto acontecendo em uma velocidade sem precedentes e com uma visibilidade imensa, por conta do compartilhamento em massa das informações atiradas nas mídias digitais.

É neste cenário, que deve ser encarado o quanto estamos próximos de passar o mesmo que está passando o Neymar, resguardas as devidas proporções. Nunca na história as nossas conversas foram tão registradas como são atualmente pelos aplicativos de mensagens e também, nunca estivemos tão sujeitos a sermos gravados, por conta do fácil acesso que todas as pessoas têm à câmera pelo celular.

Esse estado de risco, exposição e constante vigilância, não pode ser rebatido com uma frase vazia tal como “quem não deve não teme”. Não se trata do medo de ser exposto cometendo um crime, mas do medo de perder qualquer acesso à nossa esfera íntima e, por consequência, da nossa liberdade com nós mesmos, por conta da hostil vitrine em que nos encontramos expostos.

Casos como o de Neymar não devem servir, portanto, para que nós subamos no altar da moralidade e especulemos sobre qual deveria ter sido a conduta correta dela ou dele nas mensagens trocadas ou, ainda, como cada um deveria conduzir a sua vida pessoal e íntima. Se eles entraram em litígio por problemas particulares, que resolvam os seus assuntos pessoais na justiça por intermédio dos seus advogados e pelo rito das leis.

É mais útil para todos nós, neste cenário de ameaça à vida privada que estamos submetidos, ver casos como de Neymar para refletir o quão raro e importante se tornou construir relações de confiança, separar a nossa vida íntima da social e, por fim, especular e cuidar menos da vida íntima dos outros.

Igor Prado

Coluna Sem Cerimônia em JornalDomingo.com.br
Estudante de direito na Faculdade de Direito do Sul de Minas — FDSM. Líder político jovem, ativista por uma democracia mais justa ao país l E-mail: igorpradotavaresmg@gmail.com l Redes sociais: @igorpradomg
Igor Prado

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