terça-feira, junho 25

Um cemitério virtual chamado Facebook. Você conhece?

No final do século XIX, com a criação do cinema, as pessoas se assustaram com a possível eternização dos mortos. Isso porque, naquela época, as pessoas viviam poucos anos e indivíduos filmados e, posteriormente falecidos, acabavam tendo seus filmes exibidos para outras pessoas.

Parte do público se assustava ao ver, em movimento, imagens das pessoas falecidas, já que, na época, eram comuns apenas imagens estáticas, isto é, as fotografias e a arte dos pintores que faziam réplicas da realidade.

Naquele tempo, imagens em movimento eram consideradas “coisa do demônio”, pois as pessoas ainda não compreendiam a evolução da ciência que havia culminado naquela nova forma de registro da realidade.

Cem anos depois, na virada do século XX para o século XXI, outro “fenômeno” de eternização dos mortos ocorreu, desta vez, propositalmente. Foram criados cemitérios virtuais, que as pessoas podiam visitar, colocar velas acesas e flores virtuais, e até deixar mensagens para os falecidos.

As visitas aos cemitérios virtuais tinham maior volume do que as feitas em cemitérios reais e houve casos em que os cemitérios reuniam pessoas comuns e celebridades. Ayrton Senna, recém-falecido naquela época, tinha lápides em vários cemitério virtuais.

Com a criação das plataformas de redes sociais online, assistimos a um novo fenômeno de eternização das pessoas falecidas. Primeiramente porque poucos usuários se sentem à vontade em compartilhar sua senha para a posterior desativação da conta. Outro motivo é a dificuldade que algumas pessoas têm para se desligarem de seu cotidiano os entes queridos falecidos.

Há quem envie mensagens, deseje feliz aniversário, compartilhe links na linha do tempo do falecido e até comente vídeos antigos da pessoa, como se ela ainda estivesse viva. E é possível perceber que muito do que é escrito e expressado publicamente jamais foi dito para a pessoa enquanto ela estava realmente viva.

Enfim, o que significa manter alguém virtualmente vivo e fazer declarações que todos possam ver com exceção do real destinatário da mensagem? Será que não é o falecido o destinatário? Qual é a razão dessa exposição pública? É semelhante a postar uma foto ou uma mensagem para quem não tem conta em plataformas de redes sociais online mas pode ver um print da mensagem por um outro canal de comunicação ou ser informado sobre a postagem?

Segundo estimativas, 8 mil usuários do Facebook falecem diariamente. Ao final de um ano, são mais de 2,9 milhões de perfis somente no Facebook que continuam a aparecer na timeline dos amigos com lembretes de aniversário, celebração de amizade etc. Quantos deles receberão também curtidas, comentários e mensagens que jamais serão lidas pelos donos dos perfis?

Não há dúvidas que observamos,  nesse fúnebre campo de mortos virtuais do Facebook, a presença constante de um mecanismo de recusa da realidade do luto. No trabalho de luto, enfrentamos a dura realidade de reconstruirmos nossas vidas reais sem nossos entes queridos. Precisamos passar por esse processo de sofrimento para redesenharmos internamente essa pessoa e, finalmente, encontrar formas de atenuar sua ausência. Quando esse processo não se consolida de forma sadia, ocorre o inverso. Ao buscamos manter a imagem daquele que nos deixou cada vez mais viva, ceifamos nossa própria vida. Essa recusa de viver a realidade atinge em cheio a vida virtual, confundindo vivos e mortos ou transformando ambos em uma coisa só.

Rodrigo Fonseca

Coluna Sexualidade & Comportamento em JornalDomingo.com.br
*Psicólogo — Psicoterapeuta | e-mail rodrigoofonsecapsa@gmail.com
Rodrigo Fonseca

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