quinta-feira, agosto 6

Sistemático, eu?

Certa ocasião fui visitar meu pai. Quando cheguei, ele estava abrindo um pacote que tinha acabado de receber do correio com um estilete, em cima da mesa de jantar.  Era a maquininha de etiquetar que ele havia comprado pela internet.

            – Olha que bacana. A gente digita o que quer, e ela imprime uma fita auto-adesiva que a gente pode colar onde quiser! Dá pra escolher até o tipo de letra!

            Dentro da caixa ainda haviam fitas de várias cores: cinza, azul, vermelho.

            – Bacana, pai. Mas me diz uma coisa: pra quê você comprou isso?

            – Preciso etiquetar umas coisas, ué. Óbvio.

            Não levei o assunto pra frente, pois não entendia que diabos um homem aposentado queria tanto etiquetar. Fiquei até tentando imaginar, mas fui pra casa sem questionar muito.

            Dias depois, passei lá de novo.

            – Tudo bom? Quais as novidades?

            – Não tem novidade não. Só que eu etiquetei a cozinha.

            Olhei para a estante de mantimentos, cheia de vidros transparentes – cada um contendo um produto diferente.

            O vidro de arroz tinha uma etiqueta azul escrita “arroz”. O de farinha de trigo tinha os seguintes dizeres: “farinha (trigo)”, enquanto a de milho dizia “farinha (milho)”. E assim por diante: “feijão (carioquinha)”, “sal (refinado)” ou “açúcar (cristal)”. É óbvio que separou macarrão por tipo.

            – Me diz uma coisa que essa eu preciso entender. Você comprou vasilhames transparentes, correto?

            – Sim, claro. É bem melhor.

            – Pois pelo amor de Jesus Cristo, se o vidro é transparente e eu estou vendo que ele contém feijão, então está definido onde está o feijão! Certo?

            – Certo!

            – Então por quê você etiquetou o vidro?

            – Sou Teixeira. Sou sistemático.

            Sem ter como contra-argumentar, preferi abrir uma cerveja e cair na gargalhada: o homem era doido de pedra. Rimos muito nesse dia.

            Já quase indo embora, me lembrei das outras cores e perguntei pra quê tanta cor. Arrependi:

            – Escritório.

            Fechei a porta e fui pra casa parecendo um louco, porque todo mundo olhava pra mim de tanto que ria.

Leandro Alkmim Teixeira

Coluna Cidadania em Movimento em JornalDomingo.com.br
Engenheiro eletricista | E-mail: leandro.alkmim@yahoo.com
Leandro Alkmim Teixeira

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