sábado, agosto 24

Pare. Silencie. Escute.

Feche os olhos por um momento. O que você ouve? Mais: o que você escuta? Quando estamos privados de um dos cinco sentidos, os outros se mostram mais apurados. Ouvimos sons o dia todo, mas pouco escutamos. O que cada som diz? Ouvimos pessoas o dia todo, mas pouco escutamos. O que cada pessoa diz?

A escuta é uma arte. Às vezes falar dói, porque faz com que toquemos em assuntos que preferimos deixar sepultados. Às vezes escutar também dói: para escutar, é preciso se fazer vulnerável para ser tocado pela palavra (ou não palavra) do outro.

Escutar é difícil porque exige silenciar. E, em meio à agitação do dia-a-dia, este é um desafio. Não paramos para escutar sequer os sinais do nosso corpo – por exemplo, uma dor de cabeça que é gerada pelo stress e nos diz para desacelerar nossa rotina.

Insistimos em ouvir aquilo que queremos que o outro diga e não escutamos aquilo que ele realmente diz.
Escutar é envolver-se com o outro, aceitar o convite para entrar na sua intimidade e deixar que ele ocupe espaço em nós. E, num mundo que nos incentiva a trocar vínculos reais pelos virtuais, carecemos de – ter e ser – bons escutadores.

A escuta pressupõe a sensibilidade do olhar, o movimento e a sincronia do outro, e, nessa cadência, o corpo também se torna palco da escuta. Sim, escutamos com o corpo (e a alma!). Com ele (e através dele) ditam-se os movimentos da relação com o outro, através de dinâmicas gestuais, verbais e emocionais.

A escuta se configura então em um tecido delicado e harmonioso da relação humana – uma construção cujos retalhos são marcados por fragmentos de uma história narrada em perspectiva.

Escutamos essencialmente aquilo que é demasiadamente humano. Mesmo porque tudo que vem da palavra está fadado pelo humano, logo, pela linguagem. Que sejamos tocados sempre pela necessidade de escutar, pois:
“Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força o resgata” (Carlos Drummond de Andrade).

Escrito em parceria com minha amiga Ana Cláudia Silva.

Rodrigo Fonseca

Coluna Sexualidade & Comportamento em JornalDomingo.com.br
*Psicólogo — Psicoterapeuta | e-mail rodrigoofonsecapsa@gmail.com
Rodrigo Fonseca

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