quinta-feira, setembro 19

J. Teixeira Filho: um homem temporão

– Dormiu bem?

– Dormi sim!

– Com quem?

– Ué, com a mesma encrenca de sempre!

– E o quê você achou?

Era assim que ele cumprimentava praticamente todo mundo – independente de idade, sexo ou até de nacionalidade. Era um protocolo a ser seguido. Uma espécie de marca registrada.

Homem de muitas facetas: médico por opção, escritor por diversão, poeta por paixão. Ativista político anti-esquerdista fervoroso:

– Se você quer ser comunista ou socialista, faça isso até os 21 anos de idade porque depois pega mal pra burro!

Destilava seu humor ao mesmo tempo ácido e refinado em encontros, páginas de jornal ou no seu “blog”. Ninguém escapava.

– Doutor, coisa mais estranha. De uns tempos pra cá tenho passado mal, fico um pouco fraca, meio tonta, vomitando… Tomo um suco de fruta e pronto – devolvo tudo. Ando preocupada.

– Você tem febre, dores ou aconteceu alguma coisa mais recentemente?

Pressão aferida, temperatura checada e já no final da consulta, vinha o diagnóstico:

– Você está grávida.

– O quê? Não pode ser!

– Pode. Grávida. Tá aqui o pedido de exame, vamos confirmar.

– Mas doutor, eu não sei como foi que isso aconteceu comigo!

– Bom… se você não sabe, muito menos eu. Quem sou eu pra saber isso! Só sei que está grávida!

Futebol era uma coisa sagrada. Atleticano “desde criancinha”, sempre comparava os jogadores da atualidade com os antigos, e quando via acontecer um desastre como aquela sapatada da Alemanha, ele atacava com voz de locutor:

– Que papel feio! Este jogo não me agrada, não! Não é nada disso! Parou, perdeu! Bobeou, perdeu! Ô Felipão, olha o telefone tocando! Corre que é a tua mãe!

Apaixonado pela França. Arrisco dizer que era praticamente um francês, nascido “nas proximidades de Marseille”, como falava. Tendo visitado o país décadas atrás, voltou para um passeio mais recentemente e, frustrado com o que viu, resumiu a Paris da atualidade:

– Uma bosta. A gente senta nos bistrôs com meia bunda de tão pequenas que são as mesinhas e cadeirinhas, e pega fila pra tudo. Lotado demais. Um lugar lindo, mas está sendo tomado por loucos.

De respostas rápidas e hilárias, nas situações cotidianas mais improváveis ele improvisava:

– Vou fazer um almoço pro senhor lá em casa!

– Não vou. Ultimamente só vou nas casas dos meus filhos.

– Mas assim eu vou ficar chateada!

– E o que é que tem?

Engraçado ele se dizer ateu. Sempre trocava ferpas com amigos e parentes religiosos – tendo sido ele próprio criado no catolicismo e cujas ações ao longo de sua vida mostrem exatamente o oposto. Dizia que religião era a “crença ilógica na ocorrência do improvável”.

Até que meu telefone tocou: estava a caminho do hospital. Pulei no meu carro, fui ver o que estava acontecendo, pois qualquer sinal àquela altura precisava ser investigado. E acabou que foi direto para a UTI.

Certo dia resolvi passar a manhã com ele. Entrei no cômodo, me sentei na cadeira, trocamos algumas palavras. Depois de uma soneca, me levantei e já na porta, brinquei com ele:

– Que papel feio, hein?!

– Horroroso.

No dia seguinte ele foi intubado. Aquele foi o meu último diálogo com o homem mais marcante que conheci na vida: meu pai.

Leandro Alkmim Teixeira

Coluna Cidadania em Movimento em JornalDomingo.com.br
Engenheiro eletricista | E-mail: leandro.alkmim@yahoo.com
Leandro Alkmim Teixeira

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