sábado, agosto 24

Falar está perigoso, calar se tornou tóxico

Somos inundados por informações a todo instante e a velocidade com que elas surgem cresce na mesma proporção em que aumenta a dificuldade de se separar verdade e fake news.

Em grande parte, essa capacidade de pulverização das informações tem a ver com o volume excepcional de pessoas que dedicam seu tempo à vida virtual nas plataformas de redes sociais online.

Não é loucura afirmar que atualmente as notícias têm efeitos bem mais profundos em nossa vida psíquica do que em outras décadas.

No Brasil, a intensidade desses efeitos se destaca sobretudo no cenário sócio-político. As informações circulam  permeadas de violência e perversidade e, assim, têm produzido gradativamente  um nível tóxico de sofrimento psíquico que até pode passar imperceptível aos nossos olhos, mas se evidencia em atitudes amedrontadoras, comportamentos intolerantes, alterações constantes do humor, etc.

É importante mencionar que a palavra afeto deriva do latim affectio, que tanto pode significar comoção (estar comovido, emocionado) quanto afecção (doença). Sendo toda afecção (doença) um pathos (excesso), podemos então deduzir que, quando somos afetados, seja por uma notícia de perversidade e violência (como o caso do menino Rhuan) ou mesmo pelas notícias que refletem o momento de instabilidade política, há dentro de nós um excesso de angústia e expectativa que ameaça nossa estabilidade de vida.

Vivemos então constantemente ameaçados por uma forma de angústia latente que não temos encontrado conseguido expressar. Falar de política hoje tem sido mais perigoso do que em outros tempos: o assunto racha famílias, encerra casamentos, silencia amigos de longa data.

A capacidade de se indignar está cada vez mais reprimida pela ameaça da violência e das retaliações de uma sociedade que não tolera o diálogo e a interlocução de ideias.

Por tudo isso, ao sermos cada vez mais afetados emocionalmente, nossa capacidade de usar a linguagem e a fala como forma de expressão de um sentido para o que vivemos fica cronicamente engessada. Nos consultórios de psicologia e psicanálise fica evidente a angústia do paciente em reconhecer a importância de sua voz como um meio de sua própria construção como sujeito.

A cada vez que ele se reconhece por meio daquilo que fala, as angústias até então incompreendidas podem ser elaboradas. E essa possibilidade de falar livremente, de ter atonomia para falar o que vier em sua mente é potencialmente libertador e fatalmente curador.

Rodrigo Fonseca

Coluna Sexualidade & Comportamento em JornalDomingo.com.br
*Psicólogo — Psicoterapeuta | e-mail rodrigoofonsecapsa@gmail.com
Rodrigo Fonseca

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